EFEMÉRIDES DO CALANGO

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25 abril, 2016

[OPINIÃO] Batman: Morte em Família

A última vez que li Morte em Família tem mais de 20 anos. Logo, não lembrava dos mínimos detalhes da HQ. Então, foi um prazer renovado reler essa obra na semana passada.
O roteiro é assinado por ninguém menos que Jim Starlin (Warlock, todas as sagas memoráveis envolvendo Thanos, Dreadstar) e a arte é do incomparável Jim Aparo. Essas, por si só, já são credenciais de uma excelente obra em quadrinhos.
Pois bem, a capa já entrega o conteúdo e não vou considerar spoiler. Em verdade, vai ser difícil evitar spoilers dessa vez. Mas nada que estrague uma leitura posterior. Trata-se da morte de Jason Todd, o segundo garoto a assumir o manto do passarinho (Sim! Robin é um pássaro do hemisfério norte). Criado em 1983, tinha uma origem similar à de Dick Grayson, mas sofreu uma reformulação após Crise nas Infinitas Terras, passando a ser um órfão que foi pego pelo Batman  roubando as rodas do Bat-móvel (sic!). E Batman, ainda consternado pela 'perda' do Robin original (agora, na fase adulta, ele tinha saído da asa do morcego e se tornado o Asa Noturna), acabou por adotar Jason e, algum tempo depois, efetivá-lo como Robin.
Ocorre que Jason descobriu algum tempo depois que seu pai, que era capanga de profissão, fora morto por seu empregador, o Duas-Caras. Em busca de vingança, quando o novo Robin encontrou o Duas-Caras ao lado do Batman, o próprio morcego chegou a temer pela atitude de seu pupilo, mas Jason simplesmente deixou Duas-Caras ser preso, como o próprio Batman faria. Contudo, deste momento em diante, o jovem entrou numa espiral de violência e irresponsabilidade que já estava colocando-o em perigo e aos que estavam à sua volta. Neste ponto se inicia Morte em Família.  
Ao perceber o comportamento desregrado de Jason, Batman chegou à conclusão de que havia acelerado demais sua iniciação como Robin, pois o garoto ainda sofria com a morte dos pais. Aquela raiva precisava ser tratada antes dele atuar ao lado do cruzado de capa. Decidiu, então, tirar o Robin da ativa por algum tempo. Mas o garoto acabou ouvindo a conversa entre Bruce e Alfred e não assimilou bem a questão. Saindo de casa, acabou perambulando pela sua antiga vizinhança, onde descobriu algo desconcertante: a mãe que o criou e que vira morrer numa cama de hospital não era sua mãe biológica. Um alento por saber que não estava mais órfão, mas um problema por só ter uma pequena pista de quem seria essa mãe. Com as habilidades detetivescas que Batman sempre ensina a seus pupilos, acabou chegando a uma lista de três possíveis 'suspeitas', todas fora do país. Em paralelo, o Coringa foge do Arkham mais uma vez e o Batman  parte em seu encalço, sem o Robin (que estava suspenso). A trama acaba levando também Coringa e Batman ao exterior. 

Aqui cabe uma observação. Embora Jim Starlin seja um roteirista excelente, ainda era a década de 1980. Algumas características da era de prata pareciam persistir nos roteiros. No caso de Morte em Família, o roteiro sofre de alguns clichês clássicos e o mais óbvio é que Robin e Batman estão em investigações paralelas no exterior, um sem saber do caso do outro, mas ambas as investigações acabam fazendo-os se encontrar. Além disso, as três possíveis mães de Jason trabalham com assuntos que as levam a ter contato com o Coringa e a mãe verdadeira é a última da lista. Ou seja, um rol de soluções simplistas de roteiro que seriam impensáveis hoje em dia. Mas estamos falando de Jim Starlin! logo, há muitas outras características no roteiro que superam essa aparente simplicidade. Talvez fosse uma exigência editorial para uma revista de linha. Afinal, até mesmo o final foi decidido pelos leitores por meio de números telefônicos que representavam votos pela morte ou não de Jason. 
Um coisa interessante é que Morte em Família não acaba com a morte de Jason, mas apenas com a perseguição de Batman ao Coringa em busca de justiça. 
Quais foram as coisas mais interessantes que vi nessa releitura mais de vinte anos depois e com o conhecimento que acumulei em meus 41 anos de idade? Primeiro, essa é uma história que mostra a falibilidade do Batman, mas de uma forma que não o diminui, apenas o aproxima do humano comum que somos nós. Ou seja, nos aproxima do Batman. Essa falibilidade é vista pelas seguidas tomadas de decisão equivocadas ou derivadas de opções ruins. Logo ao início, o próprio Bruce Wayne reconhece que não foi uma decisão adequada acolher Jason e transformá-lo em Robin quando ainda estava sob o impacto emocional da saída de Dick da caverna. Logo depois, ir atrás do Coringa ou ficar e resolver o dilema surgido com a reação negativa de Jason à suspensão de suas atividades como Robin? Não se trata de uma decisão ruim apenas. Neste caso, as opções eram ruins. Ele optou pela que achou menos ruim. Isso só nos lembra que Batman sempre adotou 'filhos', mas nunca foi um pai efetivo. Afinal, ele perdeu o próprio com cerca de 10 ou 11 anos. Como lidar com adolescentes sem ter passado pela convivência paterna em sua época? E, por fim, a pior decisão de todas e que o assombra até os dias de hoje: sair em busca de um comboio cheio de gás do riso do Coringa que mataria centenas de pessoas (essa decisão não foi errada), mas deixar Robin de tocaia no armazém para o qual o Coringa poderia voltar, pedindo ao garoto que não confrontasse o palhaço diretamente, sendo que sua mãe estava nos arredores e aparentemente ameaçada pelo criminoso.
Outro fato que mostra a falibilidade de Batman, mas também de Bruce Wayne (e do resto da humanidade?) é quando chega à Etiópia e se depara com a miséria absoluta existente ali. Quem viveu os anos 1980, sabe o quanto este país esteve na mídia como exemplo da falência da comunidade internacional em ser uma efetiva comunidade. Afinal, como era possível que todo um país estivesse morrendo de fome enquanto outros eram pujantes e todos serem membros da Organização da Nações Unidas. Que unidade era essa? Palavras de Bruce Wayne ao início do capítulo 4 de Morte em Família: "Quando voltarmos a Gotham, mandarei mais um cheque para ajudar no esforço e tentar esquecer o que vejo aqui. Não sou diferente de outro qualquer. Tanto Bruce Wayne como Batman não são capazes de tudo." [grifo meu]

Por fim, a própria constatação da morte de Jason. A impotência que Jim Starlin e Jim Aparo conseguiram demonstrar naquelas duas páginas é quase palpável. (Modo "suando pelos olhos" ligado momentaneamente).
Ainda sobre essa memorável HQ, é interessante notar o posicionamento do roteirista (e da DC) sobre questões de política internacional da época. A berço mundial do terrorismo em 1988 não era a Síria, mas o Líbano, e para lá o Coringa foi em busca de vender um míssil nuclear de longo alcance e se recapitalizar. E, mais para o final da HQ, o Coringa novamente consegue ajuda do mundo árabe e se torna embaixador do Irã na ONU, convidado pelo próprio Aiatolá Khomeini em pessoa (Sim! Ele aparece na HQ!)
Nota: 9,5

Ao final desse encadernado, há a primeira vez que Jason Todd, ainda o loirinho pré-Crise nas Infinitas Terras, veste a capa do Robin, em Batman 366. è uma boa história, ainda com alguns elementos da era de prata, como a presença de Vicky Vale, e com destaque para a arte de Alfredo Alcala (alguém aí pensou em Conan?). 

* * A T U A L I Z A Ç Ã O * * 

Outro fato que considerei relevante neste encadernado, derivado desta história bônus, mostrando o Jason Todd pré-Crise nas infinitas Terras, é a aparição de uma filha do Alfred - Julia Remarque. Eu havia anotado isso para essa resenha, mas acabou me escapando na última hora. Contudo, devido à relevância disso, decidi por esta atualização.
Quando o Scott Snyder introduziu nos Novos-52, especificamente na revista Batman Eternal, uma filha do Alfred que ele havia deixado no passado - Julia Pennyworth, lembro das críticas havidas sobre esse fato, incluindo-me dentre os "revoltados". Afinal, como o Alfred, o cara que criou Bruce Wayne após a morte de seus pais, um verdadeiro pai na acepção amorosa da palavra, poderia ter deixado uma filha para trás? É óbvio que Scott Snyder havia enlouquecido, não? Pois é! Ele não enlouqueceu. Apenas bebeu em fontes pré-crise para trazer apresentar-nos essa filha do Alfred. Não foi inovador, apenas reciclou uma ideia que se iniciou em Detective Comics #501 (1981) e que foi totalmente apagada da continuidade em 1986, com a Crise nas infinitas Terras
Julia Remarque era filha do agente da inteligência britânica Alfred Pennyworth e da heroína francesa Mademoiselle Marie. Ambos atuaram juntos durante a Segunda Guerra Mundial. Devido ao estilo de vida perigoso de sua mãe, ela foi entregue a Jacques Remarque (um amigo) para que a criasse em segurança, longe das atividades dos pais. Por isso, o sobrenome dela não é Pennyworth. Não ficou claro se Alfred sabia de sua existência desde o nascimento. Na história existente em Batman #366 (1983), Julia procura Alfred porque seu pai adotivo morreu e deixou por escrito a verdade sobre seu pai.

Enfim, nos comics mainstream sempre vale a máxima"Faltou ideia nova? Recicle uma antiga!"


Fonte complementar: DC Wikia
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