EFEMÉRIDES DO CALANGO

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20 fevereiro, 2015

Como Martin Luther King Jr. contribuiu postumamente para os Peanuts

Com 17.897 publicações entre outubro de 1950 e fevereiro de 2000, a tira Peanuts de Charles M. Schulz é considerada uma das mais importantes e influentes da história e ajudou a consolidar as histórias em quadrinhos como gênero nos jornais de todo o mundo. A história de Charlie Brown, Snoopy e os seus amigos atravessou gerações e foi levada ao cinema, à televisão e ao teatro e continua a ser publicada em alguns jornais. Com tantas reproduções ao longo de 50 anos, poucas pessoas sabem que uma carta enviada a Schulz em 1968 mudou o rumo dos Peanuts para sempre.

A inclusão de Franklin, o primeiro personagem negro da tira teria sido motivado por um conjunto de cartas enviadas pela professora americana Harriet Glickman ao autor depois da morte de Martin Luther King Jr, em 1968.
“Ocorreu-me hoje que a introdução de crianças negras para o grupo de personagens de Schulz poderia acontecer com um mínimo de impacto na história. A delicadeza das crianças … mesmo Lucy, é um cenário perfeito … Tenho certeza de que não se faz mudanças radicais numa instituição tão importante sem uma vaga de choques de sindicatos, políticos, etc. Tens, no entanto, o status e a reputação que pode gerar uma boa recepção”, escrever Glickman.
Apesar das palavras de Glickman, Schulz recusou a sugestão, alegando que enfrentaria o mesmo problema que outros quadrinistas da época.
“Gostaria muito de poder fazer isto, mas tenho medo que pareça que estamos tratando  nossos amigos negros com condescendência ”, respondeu.
A professora viu na negativa do autor uma oportunidade e pediu permissão para mostrar a carta de Schulz para os seus amigos para saber como reagiriam sobre a inclusão de um personagem negro nos Peanuts. Em seguida, voltou a enviar-lhe uma carta com algumas conclusões:
“Nesta época da história, quando a juventude negra necessita de um sentimento de identidade, a inclusão de um personagem negro pode ajudar a naturalizar o diálogo entre brancos e negros”, afirmou.

Então, Schulz pensou nas palavras de Glickman e no dia 1º de julho daquele ano avisou-lhe que havia dado o primeiro passo e que na semana do dia 29 de julho, ela teria uma surpresa.

O seu nome era Franklin e apareceu pela primeira vez numa praia, quando Sally, a irmã de Charlie Brown, lançou uma bola em direção ao mar. Franklin devolve-a a Charlie. Sem alarido ou comentários raciais. Franklin e Charlie frequentavam a mesma escola e tinham o basebol em comum.

O aparecimento de Franklin foi notícia em todo o país e gerou diversas reações. Schulz comentou que foi pressionado pela sua editora a mudar de ideia, mas teve de ameaçar abandonar o contrato caso a tira não fosse publicada. Ainda assim, devido às representações negativas de negros nos meios de comunicação naquela época, escolheu deliberadamente não dar a Franklin qualquer traço negativo. 
“Franklin é equilibrado e pode citar o Antigo Testamento de forma tão eficaz como Linus. Em contraste com os outros personagens, Franklin tem o menor número de angústias e obsessões “, explicou.
Desde então, Franklin tornou-se um personagem recorrente nos Peanuts. A sua última aparição foi em 1999, um ano antes da morte de Schulz. E assim como Glickman desejava, ajudou a popularizar personagens negros na cultura americana.

Eis a carta original:

Fonte: O Observador, com adaptações.
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